Depois do hack a Coldcard deixou de ser considerada uma carteira segura e recomendada depois que um bug de geração de seed, presente no firmware desde março de 2021, foi explorado a partir de 30 de julho de 2026 e resultou no roubo de mais de 1.500 BTC de milhares de usuários. O problema não estava na internet nem em phishing, e sim na própria forma como o dispositivo criava as chaves, gerando seeds com pouca aleatoriedade que os atacantes conseguiram adivinhar por força bruta offline, mesmo com o aparelho desligado dentro de um cofre.

Neste artigo eu vou te explicar o que é a Coldcard, o que exatamente aconteceu nesse que é um dos maiores incidentes de auto-custódia da história do Bitcoin, quem foi afetado e vou mostrar por que esse caso reforça, mais do que nunca, o velho lema do Bitcoin de não confiar e verificar, e quais alternativas fazem sentido daqui para frente.

Resumo rápido do caso Coldcard

  • O que aconteceu, um bug de firmware de 2021 gerava seeds fracas, exploradas em ataques a partir de 30 de julho de 2026.
  • Tamanho do rombo, estimativas apontam mais de 1.500 BTC roubados, algo acima de 100 milhões de dólares, de milhares de endereços.
  • Como foi possível, as seeds tinham entropia baixíssima, entre 40 e 72 bits, o que permitiu adivinhar as chaves por força bruta offline.
  • Quem estava seguro, quem gerou a seed com dice rolls suficientes ou com uma passphrase forte não criada pelo aparelho ficou protegido nesse vetor.
  • O que fazer, atualizar o firmware não conserta a seed antiga, é preciso gerar uma seed nova em outro dispositivo (de outra fabricante) e migrar os fundos.

O que é a Coldcard e a Coinkite

A Coldcard é uma linha de hardware wallet fabricada pela Coinkite, uma empresa canadense sediada em Toronto e conhecida por produtos de auto-custódia de Bitcoin com foco em segurança máxima. A família inclui os modelos Mk2, Mk3, Mk4, Mk5 e o Q, todos carteiras air-gapped, ou seja, que nunca se conectam diretamente à internet, com firmware de código aberto, suporte a dice rolls para entropia extra, uso de passphrase no padrão BIP39 e um design minimalista pensado só para Bitcoin.

Durante anos essas carteiras foram amplamente consideradas entre as mais seguras do mercado para quem leva a auto-custódia a sério, justamente por nunca tocarem a internet e por usarem geradores de números aleatórios de hardware, os chamados TRNG. É importante deixar claro que outros produtos da mesma empresa, como o Tapsigner, o Opendime e o Satscard, usam um código diferente e não foram afetados por esse problema.

O que aconteceu no hack da Coldcard em 2026

A exploração começou na madrugada de 30 de julho de 2026, no horário UTC, com uma primeira grande onda de ataques. Em uma janela de apenas 25 a 41 minutos, centenas a milhares de endereços foram drenados, com estimativas iniciais na faixa de 594 a 1.082 BTC retirados de algo entre 500 e 1.196 endereços, e boa parte dos fundos foi consolidada rapidamente pelos atacantes. Nos dias seguintes vieram novas ondas, atingindo inclusive os modelos mais recentes.

Até os dias 3 e 4 de agosto, a firma Galaxy Research reportou cerca de 1.367 BTC roubados, algo perto de 89 milhões de dólares, de aproximadamente 4.585 endereços, número depois revisado para 1.596 BTC confirmados em cerca de 7.300 endereços, distribuídos em três ondas principais mais incidentes menores, ultrapassando a marca de 100 milhões de dólares. Havia ainda a suspeita de uma quarta onda que poderia elevar o total para cerca de 2.055 BTC, perto de 130 milhões de dólares, e alguns relatos indicavam que os ataques seguiam em andamento.

galaxy hack coldcard

Os padrões vistos na própria rede, como taxas fixas, ausência de troco em muitos casos e a consolidação veloz dos valores, indicavam que tudo estava sendo feito de forma automatizada. Parte do dinheiro roubado ficou parada em endereços monitorados, enquanto autoridades, exchanges e firmas de análise foram notificadas para tentar rastrear o destino dos fundos.

A origem do bug, entropia fraca na geração da seed

Para entender a gravidade, primeiro vale lembrar de forma simples o que é uma seed. Ela é a lista de palavras que representa a sua chave privada, e a segurança dela depende de ter sido criada com aleatoriedade de verdade, aquilo que chamamos de entropia. Uma seed padrão de 12 palavras deveria ter 128 bits de entropia, um número tão gigantesco de combinações possíveis que nenhum computador do mundo conseguiria adivinhar.

Se quiser se aprofundar, explicamos o que são as seeds e como memorizar suas seeds em outros guias.

O problema nasceu em março de 2021, durante uma migração de código no firmware por volta da versão 4.0.0. Ao integrar uma nova biblioteca criptográfica e ajustar as configurações internas do sistema, ocorreu um erro de build. O firmware desligou o caminho do gerador de números aleatórios de hardware, porque a Coinkite fornecia o próprio atalho para o TRNG do chip, mas por causa de uma falha de ligação o código acabou caindo em um gerador de software de reserva, um algoritmo previsível que era alimentado com dados fáceis de deduzir, como o número de série do aparelho e registradores de tempo.

O resultado foi que as seeds passaram a ter muito menos entropia do que deveriam. Nos modelos Mk2 e Mk3 a força caiu para cerca de 40 bits, e nos modelos mais novos como Mk4, Mk5 e Q ficou em torno de 72 bits, ambos muito abaixo dos 128 bits considerados seguros. O detalhe mais assustador é que o código era aberto e público no GitHub, e mesmo assim a falha passou despercebida por mais de cinco anos.

Como o ataque foi possível na prática

Com uma entropia de 40 a 72 bits, o espaço de busca deixou de ser astronômico e virou algo computacionalmente viável de percorrer. Na prática, os atacantes conseguiam gerar candidatos de seeds diretamente no computador, derivar os endereços de Bitcoin correspondentes a cada candidato e cruzar essa lista com o blockchain público para ver quais deles tinham saldo. Quando encontravam um endereço com fundos, bastava assinar e transmitir a transação de drenagem.

Repare no ponto mais importante para o usuário comum. Nenhum acesso físico ao dispositivo era necessário, nenhum PIN precisava ser quebrado, não havia malware nem golpe de phishing envolvido. O aparelho podia estar desligado, guardado dentro de um cofre, e ainda assim os fundos podiam ser roubados, porque a fraqueza estava na própria chave que ele tinha gerado lá atrás. Isso mostra que até uma carteira air-gapped depende de forma crítica da qualidade do firmware que cria as chaves.

Quem foi afetado e quem estava seguro

A boa notícia é que nem todo mundo que tem uma Coldcard estava vulnerável a esse vetor específico. Quem gerou a seed usando dice rolls suficientes, com pelo menos 50 e idealmente 99 lançamentos de dados justos pela função oficial do aparelho, adicionou entropia externa de verdade e ficou muito mais protegido. O mesmo vale para quem usou uma passphrase forte no padrão BIP39 que não foi gerada pelo próprio dispositivo, já que essa camada extra funciona como uma segunda senha que o atacante não teria como adivinhar.

Situação da seedNível de risco
Gerada pelo aparelho sem dados e sem passphrase, após março de 2021Alto, vulnerável ao ataque
Gerada com dice rolls suficientes (50 a 99 lançamentos)Baixo, protegida nesse vetor
Protegida por passphrase forte não gerada pelo aparelhoBaixo, protegida nesse vetor
Usada em configuração multisigReduzido em vários cenários

Configurações de multisig também reduzem o risco em alguns cenários, porque exigem mais de uma chave para movimentar os fundos. Ainda assim, se você não tem certeza de como a sua seed foi criada, o mais prudente é tratar como se estivesse em risco e agir.

Como a Coinkite respondeu ao incidente

No começo, o fundador da Coinkite, Rodolfo Novak, conhecido como NVK, minimizou o caso e sugeriu que as seeds teriam sido comprometidas ou vazadas por descuido dos usuários. Pouco depois, diante das evidências, a empresa confirmou o bug, publicou o advisory oficial de segurança da Coinkite e lançou uma atualização de firmware de emergência para forçar o uso correto do gerador de hardware e adicionar novas verificações de compilação.

O NVK pediu desculpas publicamente, assumiu responsabilidade total e descreveu aqueles dias como alguns dos mais difíceis da história da empresa, falando em anos de economias desaparecidos e em confiança quebrada. Existe ainda a suspeita, levantada pela própria empresa, de que os atacantes teriam usado ferramentas de inteligência artificial para auditar o código antigo e encontrar a falha, o mesmo tipo de revisão que a Coinkite diz ter rodado semanas antes sem detectar nada crítico.

Um alerta fundamental precisa ficar claro aqui. Atualizar o firmware não conserta uma seed que já foi gerada no firmware vulnerável. A correção só garante que novas seeds sejam criadas com segurança, então quem foi afetado precisa gerar uma seed totalmente nova e migrar os fundos para ela.

O que fazer se você tem ou teve uma Coldcard

Todos os usuários da Coldcard devem mover os fundos. Para isso siga este passo a passo com calma e atenção, porque a pressa é inimiga da segurança quando o assunto é mover fundos.

  1. Verifique se a sua seed foi gerada em um firmware vulnerável, ou seja, criada depois de março de 2021 sem dice rolls adequados e sem uma passphrase forte.
  2. Atualize o dispositivo para a versão de firmware mais recente disponibilizada pela Coinkite.
  3. Gere uma seed totalmente nova no aparelho já atualizado, de preferência usando dice rolls e uma passphrase forte para garantir entropia real.
  4. Transfira os fundos que ainda restam para a nova carteira com cuidado, testando primeiro com uma quantia pequena antes de mover tudo.
  5. Nunca restaure a seed antiga em nenhum dispositivo, porque ela continua vulnerável para sempre.

Existem alternativas sólidas de hardwares de outros fabricantes que vamos mostrar a seguir. O importante é não deixar fundos parados em uma seed que pode ter sido comprometida.

Por que a Coldcard não é mais uma recomendação segura

Aqui na Area Bitcoin a gente sempre defendeu a auto-custódia e o princípio de não confiar e verificar, e é exatamente esse princípio que nos leva a não recomendar a Coldcard. Uma carteira cuja única função é proteger a sua chave falhou justamente na geração dessa chave, e o fez de forma silenciosa por mais de cinco anos, atingindo modelos antigos e novos.

O caso também escancara uma lição incômoda, a de que ser código aberto não é garantia automática de segurança se ninguém revisa a fundo as partes críticas. A promessa do air-gap, de manter o aparelho longe da internet, se mostrou insuficiente quando o próprio firmware criava chaves fracas.

Se você quer manter a soberania sobre as suas chaves, e essa continua sendo a forma correta de guardar Bitcoin, existem opções muito boas para considerar:

  • A Jade Core da Blockstream, uma cold wallet Bitcoin-only, de código aberto e com preço acessível.
  • A BitBox02, uma hardware wallet suíça e simples de usar.
  • A Trezor, uma das pioneiras do mercado, com código aberto e longo histórico.
  • O SeedSigner e o Krux, para quem quer soluções air-gapped do tipo faça você mesmo, com total controle sobre a entropia.

Independente da carteira escolhida, a maior blindagem contra falhas como essa é fazer multisig, ou ainda gerar a sua seed com entropia externa e proteger tudo com uma passphrase forte.

Se quiser aprender sobre o que é multisig e como configurar, aqui está um vídeo onde mostro o passo a passo na Casa:

Perguntas frequentes sobre o hack da Coldcard

A Coldcard ainda é segura em 2026?

A Coldcard deixou de ser considerada uma recomendação segura depois do incidente de 2026, em que um bug de firmware de 2021 gerou seeds fracas que foram exploradas por atacantes. A empresa lançou correções, mas quem gerou a seed no firmware vulnerável precisa criar uma seed nova, e a confiança no produto acabou.

Como o hack da Coldcard foi possível?

O firmware passou a criar seeds com pouca aleatoriedade, entre 40 e 72 bits em vez dos 128 bits seguros, por causa de um erro que fez o aparelho usar um gerador de números previsível. Com isso, os atacantes conseguiram adivinhar as chaves por força bruta offline, sem precisar de acesso físico, PIN, malware ou phishing.

Quanto foi roubado no hack da Coldcard?

As estimativas evoluíram ao longo dos dias, chegando a mais de 1.596 BTC confirmados de cerca de 7.300 endereços, o que ultrapassa os 100 milhões de dólares. Havia ainda a suspeita de uma quarta onda que poderia elevar o total para perto de 2.055 BTC, algo em torno de 130 milhões de dólares.

Minha Coldcard foi afetada?

Se você gerou a seed depois de março de 2021 usando apenas o gerador do aparelho, sem dice rolls suficientes e sem uma passphrase forte, é provável que esteja em risco. Quem usou dice rolls, uma passphrase forte não criada pelo dispositivo ou configuração multisig ficou muito mais protegido nesse vetor específico.

Atualizar o firmware resolve o problema?

Não. Atualizar o firmware apenas garante que novas seeds sejam geradas com segurança, mas não conserta uma seed já criada no firmware vulnerável. Quem foi afetado precisa gerar uma seed totalmente nova em outra carteira de outro fabricante e migrar os fundos, sem nunca restaurar a seed antiga.

Qual carteira usar no lugar da Coldcard?

Boas alternativas incluem a Jade Core da Blockstream, a BitBox02, a Trezor e opções faça você mesmo como o SeedSigner e o Krux. O mais importante é escolher uma carteira de código aberto e reputação sólida, gerar a seed com entropia externa e proteger tudo com multisig ou uma passphrase forte.

Conclusão

O hack da Coldcard é um daqueles momentos que doem, mas que ensinam. Ele mostra que a segurança do seu Bitcoin não mora na marca do aparelho e sim nos princípios que você aplica, como gerar entropia de verdade, usar passphrase e verificar cada passo em vez de confiar cegamente. Nenhum dispositivo, por mais famoso que seja, substitui o entendimento de como a sua própria chave é criada e guardada.

Se você foi afetado, aja com calma e migre os fundos para uma seed nova o quanto antes. E se está começando agora, encare esse episódio como o melhor argumento possível para estudar de verdade a sua custódia.

Até o próximo artigo e opt out.

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Kaká Furlan

Fundadora da Area Bitcoin, um dos maiores projetos de educação de Bitcoin do mundo, publicitária, apaixonada por tecnologia e mão na massa full time. Já participou das principais conferências de Bitcoin como Adopting, Satsconf, Surfin Bitcoin e Bitcoin Conference.

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