A BIP 110 é uma proposta de melhoria do Bitcoin, do tipo soft fork temporária, que quer limitar a quantidade de dados arbitrários que cabem dentro de cada transação para devolver o foco da rede àquilo que muita gente considera o verdadeiro propósito do Bitcoin, que é funcionar como dinheiro. Ela foi escrita por um desenvolvedor pouco conhecido chamado Dathon Ohm, com rascunho original e orientação de Luke Dashjr, e propõe sete regras novas de consenso que valeriam por cerca de um ano, atacando de frente o spam de imagens e de tokens que tomou conta do blockchain desde a moda das inscriptions em 2022.

Neste guia você vai entender de forma simples o que é a BIP 110, quem a propôs, o que ela muda no Bitcoin na prática, quais seriam as consequências caso a rede decida ativar essas regras e, ao final, a nossa leitura sobre por que ela dificilmente vai passar do jeito que está.

Resumo rápido da BIP 110

  • O que é: uma proposta de melhoria do Bitcoin (BIP) que limita o tamanho dos campos de dados de uma transação para dificultar o armazenamento de arquivos na blockchain.
  • Tipo: soft fork temporária, com validade de aproximadamente um ano.
  • Quem propôs: Dathon Ohm, um dev pouco conhecido, com rascunho original e conselhos de Luke Dashjr, o mesmo desenvolvedor por trás do Bitcoin Knots.
  • O que muda: sete regras novas que invalidam os principais truques usados para inserir imagens, textos e tokens dentro das transações.
  • Suas moedas correm risco? Não. Todo bitcoin que já existe hoje fica de fora das novas regras, então nada é congelado ou apagado.
  • Vai passar? Provavelmente não. A proposta força uma mudança grande de consenso, e nomes conhecidos na comunidade como Adam Back e Matt Odell já se posicionaram contra.

O que é a BIP 110

BIP é a sigla para Bitcoin Improvement Proposal, ou proposta de melhoria do Bitcoin. É o formato oficial que os desenvolvedores usam para sugerir mudanças no protocolo, documentar padrões e discutir ideias de forma aberta. O Bitcoin é open source e não tem dono, não tem roadmap e não tem uma empresa decidindo o que vem a seguir, então toda melhoria acontece por meio de uma BIP que a rede inteira pode analisar, debater e criticar. Se você ainda não conhece esse processo, vale a pena entender antes o que é uma BIP e como ela funciona, porque é dentro desse fluxo que a BIP 110 nasceu.

A BIP 110 recebeu o título de Reduced Data Temporary Softfork, que em português significa algo como soft fork temporária de redução de dados. O nome já entrega a intenção. Ela não quer criar uma moeda nova, nem aumentar o tamanho do bloco, nem mexer na política monetária do Bitcoin. O objetivo dela é bem mais específico e cirúrgico, que é reduzir por consenso o espaço disponível para armazenar dados arbitrários dentro das transações, cortando os incentivos que apareceram quando a rede passou a tolerar esse tipo de uso.

Antes de seguir, vale fixar uma diferença que está no centro de tudo. O Bitcoin sempre evoluiu por meio de soft forks, e nunca por hard forks. Um hard fork é uma mudança tão radical que as duas redes deixam de se comunicar e viram moedas separadas, exatamente o que aconteceu quando surgiram projetos como o Bitcoin Cash. Já um soft fork cria regras sem quebrar a compatibilidade, então até quem roda versões mais antigas do software continua fazendo parte da mesma rede. A BIP 110 propõe um soft fork e é justamente por mexer no consenso da rede que ela gera tanta polêmica.

Por que a BIP 110 surgiu?

Para entender por que uma proposta dessas apareceu agora, é preciso enxergar que o problema é antigo. No fundo, o que está em jogo é uma pergunta que divide a comunidade desde o começo, que é se o Bitcoin deve ser apenas dinheiro ou se também pode servir para armazenar qualquer tipo de informação. Foi por causa dessa disputa que surgiram o Ethereum e outras shitcoins, que mudaram o funcionamento das suas redes para acomodar mais scripts e mais tipos de dados.

No Bitcoin, esse tipo de uso ganhou força a partir de 2022, com o surgimento das inscriptions. Aproveitando brechas abertas pela atualização Taproot, de 2021, que por sua vez foi um desdobramento do SegWit, um grupo de pessoas descobriu como gravar imagens, textos e até vídeos diretamente dentro das transações. Foi assim que nasceram os Ordinals e os chamados NFTs do Bitcoin, e logo depois vieram ondas de tokens como o padrão BRC-20 e o protocolo Runes.

Na visão de quem defende o Bitcoin como dinheiro, tudo isso é spam. São dados que não têm relação com pagamentos, mas que competem por espaço nos blocos, que são limitados, e ficam gravados para sempre. Cada arquivo que alguém insere na blockchain precisa ser baixado, validado e guardado por todos os computadores que rodam um nó completo, mesmo por quem acha aquele conteúdo inútil ou ofensivo, o que pesa sobre a contabilidade de moedas da rede, o chamado conjunto de UTXOs, e ameaça a descentralização, já que um nó mais pesado é mais difícil de rodar em casa.

A situação ficou ainda mais tensa quando o Bitcoin Core, o software de nó mais usado da rede, lançou por volta de outubro de 2025 a sua versão 30. Essa atualização, que discutimos ao falar do que mudou nas versões recentes do Bitcoin Core, elevou o limite padrão de dados no campo OP_RETURN, que era de 83 bytes, para algo em torno de 100 mil bytes. Na prática, quem roda um nó e não mexe manualmente nessa configuração acaba afrouxando de forma automática a política de dados da própria máquina. A BIP 110 aparece justamente como a resposta do outro lado dessa disputa, propondo travar por consenso aquilo que a versão 30 do Core deixou de travar.

Quem propôs a BIP 110?

A BIP 110 foi lançada em dezembro de 2025, logo depois da versão 30 do Bitcoin Core, e a autoria oficial é de um desenvolvedor até então pouco conhecido chamado Dathon Ohm. Mas os créditos do próprio documento deixam claro que o rascunho original e boa parte dos conselhos vieram de Luke Dashjr, um dos desenvolvedores mais antigos e mais combativos do ecossistema, conhecido por manter o Bitcoin Knots, uma versão alternativa do software de nó que sempre foi mais rígida contra spam do que o Bitcoin Core.

Isso não é um detalhe qualquer. A implementação de referência da BIP 110 parte do código do Bitcoin Knots, e não do Bitcoin Core, o que mostra bem de qual trincheira dessa discussão a proposta veio. Vale lembrar que hoje apenas uma fatia pequena da rede, algo em torno de 2% a 3% dos nós, roda o Knots, e há quem interprete a proposta também como uma forma de ampliar esse número, já que a única maneira de aplicar esses filtros seria rodando a versão que os inclui.

Seja qual for a leitura, o ponto central sobre quem realmente controla o rumo do Bitcoin continua valendo. Nenhum desenvolvedor consegue impor uma regra sozinho, porque uma proposta só vira realidade se a rede, formada por quem roda os nós e valida os blocos, decidir adotá-la.

O que muda no Bitcoin na prática com a BIP 110

A BIP 110 acrescenta sete regras novas que os nós passariam a checar durante o período de vigência do soft fork. Elas parecem técnicas à primeira vista, mas o espírito por trás de todas é o mesmo, que é fechar as portas mais usadas para gravar dados grandes e contínuos dentro das transações. Abaixo está o resumo de cada uma em linguagem direta.

RegraO que passa a ser inválidoPor que isso importa
1Endereços de saída acima de 34 bytes, com exceção do OP_RETURN que volta ao limite de 83 bytesRestaura o antigo limite do OP_RETURN e impede inchar o conjunto de moedas não gastas com lixo
2Empurrões de dados e itens de testemunha acima de 256 bytesCorta o principal caminho para armazenar imagens e arquivos grandes de uma vez só
3Gastar versões de testemunha ou de Tapleaf ainda não definidasProtege espaços reservados para futuras melhorias contra abuso imediato
4Transações que usam o anexo (annex) do TaprootO anexo é um campo sem uso legítimo hoje e sem limite de tamanho
5Blocos de controle do Taproot acima de 257 bytes, o equivalente a 128 scriptsLimita árvores de script gigantes que servem quase só para embutir dados
6Tapscripts que contenham os códigos OP_SUCCESSEsses códigos são reservados para o futuro e viram vetor de spam
7Tapscripts que executem OP_IF ou OP_NOTIFUma das brechas mais usadas hoje para injetar dados que o próprio script ignora

Segundo os próprios proponentes, essas regras filtrariam por volta de 41% das transações de spam e liberariam cerca de 36% de espaço no bloco, sem barrar nenhuma transação financeira legítima. São números da defesa da proposta, e por isso devem ser lidos com o pé atrás, mas dão uma ideia do tamanho do efeito que ela promete.

Quem entende de como o Bitcoin Script funciona por dentro percebe que a mira recai sobre recursos como o OP_IF, que já era considerado redundante depois do Taproot e que hoje é usado principalmente para esconder conteúdo dentro das transações.

O ponto mais tranquilizador: nada do que você já tem é afetado

Essa talvez seja a parte que mais interessa para quem só compra e guarda Bitcoin. A BIP 110 usa um mecanismo chamado grandfathering, que na prática significa o seguinte: todas as moedas que já existem hoje, ou seja, todo bitcoin confirmado antes da ativação, ficam completamente de fora das regras novas.

Você poderá gastá-las exatamente como gastaria antes, do começo ao fim do período, e ainda haveria um prazo de cerca de duas semanas entre a trava e a ativação para migrar qualquer fundo em situação incomum. As regras só valem para moedas criadas depois da ativação, e quando a soft fork expirar tudo volta a ser irrestrito. Ninguém tem bitcoin congelado ou apagado por causa disso.

Como a BIP 110 seria ativada?

Por ser uma soft fork, a BIP 110 não obriga ninguém a nada de imediato. A proposta usa uma versão modificada do mecanismo de sinalização conhecido como BIP9, com algumas diferenças importantes que refletem a urgência que os autores enxergam no problema.

  • Prazo definido: a janela de ativação está amarrada a uma altura de bloco que corresponde a mais ou menos setembro de 2026.
  • Limite de apoio menor: em vez dos 95% de sinalização de mineradores que soft forks permanentes costumam exigir, a BIP 110 pede apenas 55%, justamente por ser temporária e urgente.
  • Validade de um ano: se ativada, as regras valem por cerca de 52.416 blocos, aproximadamente um ano, e depois expiram sozinhas, a não ser que a comunidade proponha algo mais definitivo no lugar.
  • Espírito de UASF: a implementação segue a linha das ativações puxadas pelos usuários que rodam nós, e não apenas pelos mineradores, o mesmo mecanismo que acabou ativando o SegWit em 2017.

Vale um aviso importante para não gerar confusão. O status oficial da BIP 110 no repositório é Complete, o que quer dizer apenas que o documento está finalizado e revisado como especificação. Isso não significa que a regra já esteja valendo na rede. A ativação de verdade depende de quantos nós e mineradores decidirem adotar o software que aplica essas regras, e essa é uma batalha política e cultural que segue totalmente em aberto.

Um detalhe que incomoda: os blocos nem estão cheios

Aqui entra uma das críticas que mais pesam contra a proposta. No momento em que a BIP 110 foi lançada, os blocos do Bitcoin não estavam lotados. Sobrava espaço. Então ela propõe mexer no consenso da rede, com todo o risco que isso carrega, para resolver de forma antecipada um problema que hoje não está de fato expulsando as transações monetárias.

Não existe garantia nenhuma de que daqui a um ano os blocos estarão cheios a ponto de justificar uma intervenção tão agressiva, e é esse descompasso que faz muita gente torcer o nariz. Mudar o consenso para prevenir um cenário que talvez nem se concretize é um preço alto de se pagar.

Quais as consequências se a BIP 110 for aprovada

Se a rede realmente ativar a BIP 110, os efeitos apareceriam em duas frentes bem distintas. De um lado estão os benefícios que motivam a proposta, e do outro estão os custos e riscos, alguns deles bem sérios. Um bom leitor de Bitcoin precisa enxergar as duas coisas antes de escolher um lado.

Os ganhos que a proposta promete

  • Blockchain mais leve e mais barato de rodar: menos dados inúteis significa um conjunto de moedas não gastas menor e um custo menor para quem sustenta a rede rodando um nó, o que fortalece a descentralização.
  • Taxas mais justas para pagamentos: ao dificultar o spam, sobra mais espaço nos blocos para quem usa o Bitcoin como dinheiro de verdade.
  • Recado claro contra spam: a ativação mandaria uma mensagem inequívoca de que armazenar arquivos não é um uso apoiado, desestimulando novas ondas de spam.
  • Foco de volta no dinheiro: os desenvolvedores voltariam a gastar energia melhorando o Bitcoin como moeda, em vez de correr atrás dos danos de cada nova moda de dados.

Os riscos que preocupam

  • Mudança de consenso na marra: mexer no consenso da rede para atender a um grupo, com a rede dividida, é visto por muita gente como algo que traz mais insegurança do que solução.
  • Risco de um chain split: se as regras forem ativadas sem o apoio da maioria, a rede pode se partir em duas, com consequências que afetam até quem não liga para spam.
  • Impacto em contratos avançados: o limite nas árvores de script do Taproot pode atrapalhar projetos experimentais e complexos, como o BitVM, que dependem de muitos scripts.
  • Não resolve o spam por completo: os próprios autores admitem que é impossível acabar com o spam só no consenso. A BIP 110 encarece e atrapalha o abuso, mas não o elimina.

O risco de um chain split e o impacto na Lightning

O maior fantasma dessa história não é a proposta em si, e sim o que aconteceria se um grupo decidisse ativar as novas regras na marra, sem o apoio da maioria da rede. Nesse cenário, parte dos nós rodaria a versão restrita, com os filtros, enquanto a outra parte continuaria no Bitcoin Core sem eles. Quando dois grupos de nós deixam de concordar sobre quais blocos são válidos, a rede pode se partir em duas, no que se chama de chain split, uma espécie de bifurcação acidental parecida com o que originou o Bitcoin Cash lá atrás.

Um chain split não afeta apenas quem gosta ou não de spam, ele bagunça o funcionamento da rede inteira, e a Lightning Network entra na conta por depender diretamente da camada base. Os canais da Lightning são abertos e fechados por meio de transações multisig ancoradas no blockchain, então uma reorganização de blocos ou uma incompatibilidade entre as duas redes poderia gerar confusão sobre qual transação de fato valeu, colocando fundos em canais em situação delicada.

Foi por isso que boa parte da comunidade técnica levantou a bola do risco à Lightning, que aliás vive um momento de crescimento forte de uso, o que torna qualquer ameaça ao seu funcionamento ainda mais sensível.

Os dois lados do debate: censura, taxas e descentralização

Por baixo da parte técnica existe uma disputa que é, no fundo, ideológica, e ela tem dois lados que merecem ser ouvidos.

Quem defende afrouxar as regras

Os que vão na linha do que o Bitcoin Core fez na versão 30 seguem o argumento do chamado security budget. Como a recompensa por bloco cai pela metade a cada halving do Bitcoin, no longo prazo os mineradores vão depender cada vez mais das taxas para manter as máquinas ligadas. Mais uso do espaço de bloco, mesmo que seja com dados, significa mais competição, taxas mais altas e mais receita para quem sustenta a segurança da rede. Nessa visão, restringir o que pode ser gravado seria abrir mão de uma fonte de receita e ainda por cima uma forma de censura, afinal se a pessoa pagou a taxa, a transação dela deveria entrar no bloco.

Quem defende apertar as regras

Do outro lado estão os que defendem apertar as regras, como a turma da BIP 110. Para eles isso não é censura, e sim regra, do mesmo jeito que o Bitcoin já tem várias regras que todo mundo aceita. O raciocínio é que encher o bloco de lixo é que censura o uso monetário, porque encarece os pagamentos e, pior, deixa a rede tão pesada que ninguém mais consegue rodar um nó em casa. Sem gente rodando nó, o Bitcoin centraliza em datacenters e vira só mais um protocolo qualquer, perdendo justamente aquilo que o torna dinheiro sólido e resistente à censura.

A verdade desconfortável é que os dois lados têm pontos válidos, e ninguém consegue prever o futuro. Quanto mais flexível a rede, menos resistente ela tende a ser, mas uma rigidez excessiva também pode virar uma limitação. É um exercício de futurologia sobre uma máquina que nunca existiu antes, e talvez por isso o debate seja tão acalorado. Ele lembra até a polarização política que a gente vê no mundo, com dois extremos gritando enquanto a maioria tenta digerir a questão no meio.

A visão da Area Bitcoin sobre a BIP 110

Vale separar duas coisas que costumam ser confundidas nesse debate. A primeira é a preocupação que motiva a BIP 110, e essa preocupação a gente compartilha por inteiro. O Bitcoin é dinheiro, é a moeda mais dura já inventada, e encher os blocos de imagem de macaco, de dado aleatório e de mais uma shitcoin fingindo ser inovação é sim um desvio do propósito da rede. Nesse ponto, estamos do lado de quem defende o Bitcoin como dinheiro.

A segunda coisa é o método e é aqui que a gente trava o pé. Criar um soft fork temporário, ou seja, uma mudança feita para depois ser desfeita, soa contraditório com tudo que o Bitcoin preza, que é justamente não mudar de forma arbitrária. Bitcoin é dinheiro que se pensa em décadas, e mexer no consenso com prazo de validade, para resolver um problema que hoje nem está lotando os blocos, nos parece forçar a barra de um jeito que traz mais insegurança do que solução. Não à toa, nomes como Adam Back e Matt Odell também se posicionaram contra, alertando para o risco que a proposta representa ao consenso.

O problema é que a BIP 110 tenta corrigir um exagero com outro exagero, indo para o extremo oposto e mexendo no consenso na marra. Ficamos, portanto, incomodados com os dois lados, e o que a gente realmente gostaria de ver é o surgimento de mais implementações e alternativas, para diluir essa polarização em vez de aprofundá-la.

Então a nossa leitura honesta é essa. A intenção da BIP 110 é legítima e o debate que ela provocou é saudável e até fortalece o Bitcoin, porque obriga todo mundo a pensar sobre o que dá e o que tira valor da rede. Mas a proposta do jeito que está provavelmente não vai passar, e talvez nem deva passar dessa forma. O recado que fica, independente do desfecho, é o de sempre. Rode o seu próprio nó, estude as propostas e vote com o seu node, porque no fim é assim que cada bitcoiner participa de verdade das decisões do Bitcoin.

Se você quiser entender mais a nossa visão sobre esse assunto, confira esse podcast:

Perguntas frequentes sobre a BIP 110

O que é a BIP 110 em poucas palavras?

A BIP 110 é uma proposta de melhoria do Bitcoin, do tipo soft fork temporária, que limita o tamanho dos campos de dados das transações para dificultar o armazenamento de arquivos no blockchain e devolver o foco da rede ao seu uso como dinheiro. Ela criaria sete regras novas de consenso válidas por cerca de um ano.

Quem propôs a BIP 110?

A BIP 110 foi lançada em dezembro de 2025 por um desenvolvedor pouco conhecido chamado Dathon Ohm, com rascunho original e conselhos de Luke Dashjr, o mesmo desenvolvedor por trás do Bitcoin Knots, uma versão do software de nó historicamente mais rígida contra spam. A implementação de referência da proposta parte do código do Knots.

A BIP 110 já foi aprovada e está valendo?

Não. O status Complete no repositório significa apenas que o documento está finalizado como especificação. A ativação de verdade depende de os nós e mineradores adotarem o software que aplica as regras, e o prazo está ligado a mais ou menos setembro de 2026. Até lá, nada muda na rede por conta dela.

A BIP 110 vai passar?

Na nossa leitura, provavelmente não. Ela força uma mudança grande de consenso, blocos que hoje nem estão cheios e o apoio à proposta ainda é minoritário, com nomes de peso como Adam Back e Matt Odell contra. O Bitcoin não atualiza porque uma minoria quer, ele só muda quando praticamente toda a rede concorda, e conseguir isso é difícil de propósito.

Preciso fazer alguma coisa com os meus bitcoins?

Não. Quem compra e guarda Bitcoin em uma carteira própria não precisa fazer nada. A proposta mexe no consenso e nos nós, não na quantidade de moedas, então ela não afeta o seu saldo. Se um dia você quiser participar da decisão, o caminho é rodar o seu próprio nó e escolher qual versão do software deseja apoiar.

Posso perder meus bitcoins se houver um chain split?

Em condições normais, não. Num chain split você acabaria com o mesmo saldo nas duas redes, parecido com o que aconteceu quando o Bitcoin Cash se separou. O único risco real de perda seria transacionar exatamente no momento da separação, com as redes ainda confusas. Quem apenas mantém as moedas paradas na própria custódia não corre esse risco.

A BIP 110 é uma forma de censura?

Depende do lado que você ouve. Quem é contra diz que barrar transações que pagaram a taxa é censura. Quem é a favor diz que não é censura e sim regra, e que o verdadeiro problema é o spam encarecer os pagamentos e centralizar a rede. Esse é um dos pontos mais ideológicos do debate, e não existe consenso sobre ele.

Conclusão

A BIP 110 é muito mais do que uma linha de código nova. Ela é um dos capítulos mais recentes de uma disputa antiga sobre a alma do Bitcoin, entre quem o enxerga como dinheiro soberano e quem tenta transformá-lo em um depósito eterno de dados. A proposta acerta ao reafirmar que o Bitcoin tem um propósito, mas erra, na nossa visão, ao tentar defender esse propósito com uma mudança de consenso temporária e forçada, para um problema que hoje nem está lotando os blocos.

Pela forma como está sendo empurrada, e pela quantidade de gente respeitada que já se posicionou contra, a nossa aposta é que ela não vai passar. O Bitcoin só muda quando praticamente toda a rede concorda, e esse consenso é difícil de propósito. Foi assim com o SegWit e com o Taproot, que levaram anos de debate antes de virar realidade, então uma proposta lançada em dezembro por um desenvolvedor pouco conhecido dificilmente vai atropelar esse processo em poucos meses. No fim das contas, o debate em si já cumpre um papel importante, que é deixar a comunidade mais consciente sobre o que fortalece e o que enfraquece a rede.

Se você quer participar dessa conversa com propriedade, o melhor caminho é estudar, entender de verdade o que é o Bitcoin e, quando estiver pronto, rodar o seu próprio nó. É assim que cada um de nós ajuda a manter essa rede fiel àquilo para o qual ela foi criada.

Até o próximo artigo e opt out!

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Kaká Furlan

Fundadora da Area Bitcoin, um dos maiores projetos de educação de Bitcoin do mundo, publicitária, apaixonada por tecnologia e mão na massa full time. Já participou das principais conferências de Bitcoin como Adopting, Satsconf, Surfin Bitcoin e Bitcoin Conference.

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