Em 2020, uma empresa de software pouco conhecida fora dos EUA, a MicroStrategy, decidiu trocar o caixa em dólar por bitcoin. Foi tratada como maluca pelo mercado.
Cinco anos depois, em 2026, ela mudou o nome para Strategy, acumulou mais de 815 mil BTC e virou referência mundial. Outras 194 empresas listadas em bolsa seguiram o mesmo caminho.
Esse movimento ganhou um nome: tesourarias de Bitcoin. Mas, afinal, o que significa ser uma tesouraria de Bitcoin?
Se você quer entender o que está por trás dessa onda, por que ela mexe com o preço do BTC e quais são as principais empresas envolvidas, acompanhe esse artigo até o final.
O que é uma tesouraria de Bitcoin?
Tesouraria, no mundo corporativo, é o departamento que cuida do caixa da empresa, ou seja, o dinheiro guardado pra cobrir custos, expansão e imprevistos. Tradicionalmente esse caixa fica em moeda fiat, títulos de dívida pública ou aplicações de baixo risco.
Uma tesouraria de bitcoin é simplesmente uma empresa que decidiu guardar parte (ou quase todo) esse caixa em BTC.
Mas tem uma diferença importante. Ter alguns bitcoin no balanço como investimento esporádico é uma coisa, já adotar o bitcoin como reserva estratégica oficial da empresa, comprar de forma recorrente, comunicar isso ao mercado e estruturar a operação financeira em torno disso, é outra coisa completamente diferente.
O segundo caso é o que define uma tesouraria de Bitcoin de verdade.
Como surgiu o playbook: a tese da Strategy
A história começa em agosto de 2020, com a MicroStrategy comprando seus primeiros 21 mil BTC por cerca de US$ 250 milhões. O CEO, Michael Saylor, justificou a decisão em uma frase que virou clássica: o caixa em dólar era um “cubo de gelo derretendo” por causa da inflação.

O que ele fez nos anos seguintes mudou a forma como o mercado enxerga bitcoin no balanço de uma empresa:
- Comprou bitcoin com o caixa próprio.
- Emitiu dívida conversível em ações pra comprar mais bitcoin.
- Emitiu novas ações pra comprar mais bitcoin.
- Repetiu esse ciclo dezenas de vezes.
Em 2025, a empresa abandonou o nome MicroStrategy e passou a se chamar simplesmente Strategy. A mensagem era de que a empresa virou, na prática, um veículo de exposição alavancada ao bitcoin.
Em abril de 2026, a Strategy acumula impressionantes 815.061 BTC, o equivalente a cerca de US$ 62,3 bilhões ao preço atual de US$ 76.489. Sozinha, ela representa mais de 67% de todo o bitcoin que está em mãos de empresas públicas no mundo!
Já passou até a BlackRock IBIT, o maior ETF de bitcoin do planeta, em quantidade de moedas detidas. Pra entender melhor o personagem por trás disso tudo, vale ler o nosso post sobre quem é Michael Saylor.
Por que uma empresa troca caixa por bitcoin?
A decisão parece arriscada à primeira vista, afinal, caixa em dólar é visto como “seguro” e bitcoin é volátil. Por que então cada vez mais empresas estão fazendo isso?
Existem três motivos principais:
1. Hedge contra a inflação do dólar
Caixa parado em moeda fiat perde poder de compra todo ano. Em uma década, isso vira uma sangria silenciosa no balanço.
O bitcoin, com sua emissão decrescente programada pelo halving, é a única reserva que não pode ser inflacionada por nenhum governo ou banco central. Pra empresas com horizonte de longo prazo isso é um seguro óbvio.
2. Premium sobre o NAV (mNAV)
Esse é o jogo mais sofisticado e foi a Strategy quem inventou.
Quando uma empresa lista em bolsa carrega bitcoin no balanço, as ações dela tendem a ser negociadas com um prêmio sobre o valor real desses bitcoin. O mercado paga mais pela ação do que ela “deveria” valer só pelo BTC que ela tem.
Esse prêmio é chamado de mNAV (multiple of Net Asset Value). Enquanto ele existe, a empresa pode emitir ações novas a esse preço inflado, usar o dinheiro pra comprar mais bitcoin e aumentar o BTC por ação dos acionistas existentes. É um mecanismo de criação de valor que se auto alimenta.
Funciona enquanto o mNAV se mantém positivo. Quando ele vira negativo, o jogo trava (e isso é parte do risco que a gente vai falar mais à frente).
3. Sinalização de marca e atração de capital
Anunciar uma tesouraria em bitcoin é, na prática, uma campanha de marketing global. A Metaplanet, no Japão, era uma empresa hoteleira em decadência. Virou tesouraria de bitcoin em 2024 e teve uma das maiores valorizações de ação do mundo.
Empresas pequenas usam isso pra entrar no radar de investidores que antes nem sabiam que elas existiam.
As maiores tesourarias de Bitcoin em 2026
O ranking abaixo mostra as 10 maiores tesourarias corporativas de Bitcoin no mundo, com dados do bitcointreasuries.net.
| Posição | Empresa | Ticker | País | BTC | Valor (US$) |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Strategy (ex-MicroStrategy) | MSTR | EUA | 815.061 | ~62,3 bi |
| 2 | Twenty One Capital | XXI | EUA | 43.514 | ~3,3 bi |
| 3 | Metaplanet Inc. | MPJPY | Japão | 40.177 | ~3,0 bi |
| 4 | MARA Holdings | MARA | EUA | 38.689 | ~2,9 bi |
| 5 | Bitcoin Standard Treasury Co. | CEPO | EUA | 30.021 | ~2,3 bi |
| 6 | Bullish | BLSH | EUA | 24.300 | ~1,8 bi |
| 7 | Riot Platforms | RIOT | EUA | 15.680 | ~1,2 bi |
| 8 | Coinbase Global | COIN | EUA | 15.389 | ~1,2 bi |
| 9 | Strive | ASST | EUA | 13.768 | ~1,0 bi |
| 10 | Hut 8 Mining | HUT | EUA | 13.696 | ~1,0 bi |
Somando todas as 195 empresas públicas rastreadas, o total chega a aproximadamente 1,212 milhão de BTC, ou cerca de US$ 92,7 bilhões ao preço de hoje (US$ 76.489 por BTC).
Pra ter uma ideia da escala, isso é mais de 5,7% de todos os bitcoin que vão existir. E continua subindo.
Os 3 perfis de tesouraria que você precisa conhecer
Olhando essa lista, dá pra dividir as empresas em três grupos bem distintos.
Os “Strategy puros”
Empresas cujo modelo de negócio virou, na prática, acumular bitcoin como é o caso da Strategy, Metaplanet, Twenty One Capital, Bitcoin Standard Treasury e Strive entram nessa categoria. Algumas tinham operação anterior (software, hotelaria, biotecnologia), mas hoje a tese de investimento é puramente bitcoin.
As mineradoras
MARA, Riot e Hut 8 mineram bitcoin como negócio principal. A diferença é que, em vez de vender tudo que mineram pra cobrir custos, elas guardam parte no balanço como reserva. Isso transforma a empresa em mineradora E tesouraria ao mesmo tempo.
As empresas de infraestrutura “cripto”(shitcoin)
Coinbase e Bullish são exchanges. Elas detêm bitcoin tanto por operação quanto por estratégia. O bitcoin no balanço é parte natural do negócio.
O que isso muda no preço do bitcoin
Bom… a consequência mais óbvia é a redução da oferta circulante.
O bitcoin minerado por dia é limitado, hoje em torno de 450 BTC após o halving de 2024. Quando uma única empresa como a Strategy compra dezenas de milhares de bitcoins por trimestre e nunca vende, esse bitcoin sai do mercado de forma quase permanente.
Some isso à demanda dos ETFs de bitcoin (que também removem oferta), e você tem um cenário em que a oferta disponível pra negociação encolhe ano após ano, enquanto a demanda institucional só cresce.
Como as tesourarias drenam valor da renda fixa global
Essa parte é sofisticada e praticamente ninguém explica.
Em 2021 El Salvador anunciou os famosos Bitcoin Bonds, títulos públicos lastreados em bitcoin pra captar investidor estrangeiro. A ideia era genial e ficou no papel até hoje. Burocracia geopolítica, queda de braço política, regulação, etc. Países demoram pra fazer esse tipo de movimento.
O que a Strategy fez foi pegar essa mesma ideia e executar pelo lado privado, sem precisar de presidente, congresso ou tratado.
Em vez de bonds soberanos, o Sailor passou a emitir ações preferenciais. São papéis que oferecem dividendo previsível, parecido com um título de renda fixa, mas listados em bolsa americana e ligados à exposição em bitcoin da empresa.
O detalhe que poucos enxergam é fiscal. Pela regra da IRS, a Receita Federal americana, corporações que recebem dividendo de ação preferencial conseguem deduzir até 50% a 65% desse rendimento na declaração. Ou seja, o investidor institucional ganha rentabilidade fixa, exposição indireta a bitcoin, e ainda paga menos imposto.
O resultado é que parte do dinheiro que iria pra renda fixa tradicional, debêntures e títulos de governo, está sendo redirecionada pra ações preferenciais de tesourarias de bitcoin. É uma mudança silenciosa de alocação que está acontecendo agora, em 2026.
O Samson Mow já vinha falando há anos sobre isso. A renda fixa global tem cerca de US$ 300 trilhões em liquidez. Se uma fração pequena disso migrar pro bitcoin, o impacto no preço é enorme. As tesourarias viraram justamente o canal que faltava pra essa migração acontecer rápido.
Entendeu qual a sacada?
Os riscos do modelo tesouraria
Bom, mas nem tudo são flores. O modelo tem fragilidades que ficaram mais evidentes nos últimos meses.
Alavancagem: boa parte da Strategy foi construída com dívida emitida pra comprar bitcoin. Em um bear market prolongado, com o BTC caindo e o mNAV virando negativo, a empresa pode ser forçada a refinanciar em condições piores ou, no pior cenário, vender bitcoin pra pagar credores.
mNAV pode virar desconto: o prêmio que o mercado paga sobre o BTC do balanço não é garantido. Quando vira desconto, todo o motor de criação de valor por emissão de ações trava. A empresa fica presa.
Risco de contágio: como Strategy sozinha tem 67% do BTC corporativo, qualquer estresse financeiro nela tem potencial de mexer com a confiança no modelo inteiro. Já vimos prévias disso em quedas pontuais do mercado em 2025.
Concentração geográfica: praticamente todas as grandes tesourarias estão nos EUA. Mudanças regulatórias americanas (tributação, contabilidade, reservas exigidas) podem reverter parte dessa onda rapidamente.
Bitcoin de papel: algumas empresas vão tentar surfar a onda sem ter o bitcoin de verdade no caixa, contabilizando exposição via derivativos ou custódia opaca. Em algum ciclo bear, uma dessas vai ser auditada, exposta e quebrar. É o tipo de evento que pode contaminar a percepção de todo o setor por um tempo, mesmo as tesourarias sérias.
Imitadores fracos. Empresas pequenas viram a valorização explosiva de Strategy e Metaplanet e estão tentando copiar o modelo sem caixa, sem investidor sério e sem estratégia de longo prazo. Muitas dessas vão quebrar nos próximos ciclos e podem queimar a reputação do termo “tesouraria de bitcoin”.
E no Brasil, tem tesouraria de Bitcoin?
Tem, mas em escala bem menor.
A Méliuz foi a pioneira por aqui, virou a primeira empresa listada na bolsa brasileira a adotar bitcoin como reserva de tesouraria oficial em 2025. Foi um marco simbólico importante.
E a OranjeBTC (OBTC3) é hoje a maior tesouraria de Bitcoin do Brasil, com cerca de 3.723 BTC no balanço. Não chega nem perto das gigantes americanas, mas é um número relevante pro contexto local.
No geral o ecossistema brasileiro ainda está engatinhando nesse modelo, a barreira aqui é mais regulatória e cultural do que financeira, mas é uma questão de tempo até vermos uma onda parecida com a americana, especialmente quando o real continuar perdendo valor e o BTC consolidar reserva de valor entre CFOs brasileiros.
Vale a pena comprar bitcoin através de tesourarias?
Essa é uma pergunta que a gente recebe bastante, e a resposta é a mesma que a gente dá pra quem pergunta sobre ETFs de bitcoin: para pessoas físicas não vale a pena.
Quando você compra ações de Strategy, Metaplanet ou qualquer outra tesouraria, você não tem bitcoin de verdade. Você tem uma exposição indireta ao preço do bitcoin, intermediada por uma empresa que toma todas as decisões por você.
Isso significa três limitações sérias.
Você não tem autonomia pra sacar. Em algum momento você pode querer transferir esse bitcoin pra uma carteira própria, usar pra pagar algo, mover pra outro país. Com tesouraria, isso não existe. Você tem ação na bolsa e ação na bolsa só vira dinheiro fiat de volta.
Você fica refém das decisões da empresa. Se a Strategy decidir vender parte do bitcoin pra cobrir dívida em um bear market, você não é consultado. Se o conselho aprovar uma fusão, mudança de tese, ou pior, se a empresa quebrar, o seu investimento vai junto. Você terceirizou a soberania financeira que é, justamente, a maior vantagem do bitcoin.
Você paga o prêmio (mNAV). O mercado paga mais pela ação do que ela “deveria” valer só pelo BTC que a empresa tem no balanço. Você está comprando bitcoin com sobretaxa, R$ 1,30 ou R$ 1,50 por cada R$ 1,00 de bitcoin real. Quando esse prêmio some, sua ação cai mesmo que o bitcoin não tenha caído.
Tem uma frase que resume bem o que essas empresas representam:
Tesourarias não são o futuro do Bitcoin. Elas são o futuro do sistema fiat de Wall Street.
Bancos vão acumular bitcoin, empresas vão acumular bitcoin, países vão acumular bitcoin. Tudo isso é sinal de hiperbitcoinização e ajuda na validação institucional. Esse papel as tesourarias cumprem bem.
Para empresas que querem se expôr ao preço do bitcoin de forma regulada e não podem comprar bitcoin diretamente, essa é uma grande oportunidade. Mas pra você, pessoa física, que pode comprar bitcoin direto, guardar na sua carteira e ter controle total sobre seu patrimônio em BTC, comprar ação de tesouraria é trocar o bem mais precioso que você pode ter em mãos por um papel que representa isso. Não faz o menor sentido.
A Carol aprofunda essa discussão nesse vídeo, vale a pena assistir se você quer entender o mecanismo todo:
Perguntas frequentes
O que é uma tesouraria de Bitcoin?
É uma empresa que adota o bitcoin como reserva estratégica do caixa, no lugar (ou em paralelo) ao dólar e títulos de renda fixa. Diferente de quem só compra BTC pontualmente, a tesouraria comunica isso ao mercado, compra de forma recorrente e estrutura a operação financeira em torno do ativo.
Qual é a maior tesouraria de Bitcoin do mundo?
A Strategy (ex-MicroStrategy), de Michael Saylor, com mais de 815 mil BTC em abril de 2026. Sozinha, ela representa cerca de 67% de todo o bitcoin em mãos de empresas públicas no mundo.
Quantas empresas têm bitcoin em tesouraria hoje?
Em abril de 2026, são aproximadamente 195 empresas públicas rastreadas mundialmente, somando cerca de 1,212 milhão de BTC, o equivalente a mais de 5,7% de todo o supply que vai existir.
Existe tesouraria de Bitcoin no Brasil?
Sim. A Méliuz foi a primeira empresa listada em bolsa brasileira a adotar oficialmente bitcoin como reserva. A maior tesouraria de bitcoin do Brasil hoje é a OranjeBTC (OBTC3), com cerca de 3.723 BTC no balanço.
Comprar ações de tesouraria é o mesmo que comprar Bitcoin?
Não. Ao comprar ação de uma tesouraria você tem exposição indireta ao preço do BTC, mas não tem o ativo. Você não consegue sacar pra carteira própria, fica refém das decisões da empresa e ainda paga um prêmio (mNAV) sobre o valor real do bitcoin que ela carrega no balanço.
Qual a diferença entre tesouraria de Bitcoin e ETF de Bitcoin?
O ETF é um fundo passivo que apenas espelha o preço do BTC à vista, cobrando taxa de administração. A tesouraria é uma empresa operacional que pode emitir dívida e ações pra comprar mais bitcoin, alavancando a posição. O ETF é mais previsível; a tesouraria oferece potencial maior, mas com risco e volatilidade muito superiores.
As tesourarias podem quebrar?
Podem, sim. Os principais riscos são alavancagem excessiva (dívida pra comprar BTC), inversão do mNAV de prêmio pra desconto e empresas que dizem ter bitcoin no balanço mas operam com bitcoin de papel. Em um bear market prolongado, esses fatores podem forçar venda de BTC ou levar à insolvência.
Conclusão
Tesourarias de Bitcoin saíram da experiência de uma empresa em 2020 pra um movimento global com 195 companhias em 2026. Quase 6% do supply total de bitcoin já está em mãos corporativas.
Pra quem investe em bitcoin a longo prazo, isso significa duas coisas: validação institucional acelerada e oferta cada vez mais escassa pra quem chega depois.
O modelo tem riscos, especialmente nas empresas mais alavancadas, e nem todo mundo que entrar nessa onda vai sobreviver. Mas a mensagem que fica é que bitcoin deixou de ser ativo especulativo de varejo pra virar reserva estratégica de balanço.
Espero que você tenha gostado desse artigo,
Até o próximo e opt out!
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