Aviso importante. Em setembro de 2026 a Liquid Network sofreu o maior ataque da sua história. Um invasor explorou uma falha no software Elements e drenou cerca de 4.000 BTC, algo próximo de 95 por cento das reservas da rede, o equivalente a mais ou menos 320 milhões de dólares na época. A rede foi pausada e entrou em recuperação a partir de 9 de setembro, com uma correção de emergência já publicada e boa parte dos fundos devolvida por um atacante que agiu como white hat. É importante deixar claro logo de cara que o Bitcoin na rede principal não foi afetado em nada. O problema ficou restrito à Liquid, que é uma rede paralela. Explicamos tudo em detalhes mais abaixo, no tópico sobre o hack.

O surgimento do Bitcoin trouxe uma nova visão sobre o que é o dinheiro e como utilizá-lo. A partir dele, diversas outras inovações financeiras e digitais foram criadas.

Mas o impacto do Bitcoin não se limitou apenas ao dinheiro; ele também introduziu a possibilidade de um sistema financeiro alternativo ao que existe hoje.

Portanto, a partir do Bitcoin, tornou-se possível a criação de um ecossistema financeiro global, descentralizado e digital, abrangendo diversas classes de ativos e utilidades.

Foi a partir das inúmeras inovações que ocorreram no Bitcoin ao longo dos anos que surgiu a Liquid Network, uma rede de segunda camada, L2, que apresenta uma maneira diferente de integrar ativos digitais ao Bitcoin.

Bora entender um pouco mais sobre a Liquid Network?

Redes de segunda camada do Bitcoin

O Bitcoin abriu a possibilidade de existir um sistema financeiro alternativo ao tradicional, e a própria rede também vem atualizando lentamente suas funcionalidades desde 2009.

A demanda dos usuários orientou grande parte dessas atualizações, que, com o passar do tempo e o aumento no número de usuários, tornaram-se necessárias para que o Bitcoin se tornasse mais escalável e atendesse às necessidades financeiras globais.

Contudo, a camada um, onde os registros em blockchain são feitos e distribuídos, não é suficientemente escalável.

O Bitcoin foi desenhado para evoluir em camadas, em pilhas de protocolos que se interconectam. A camada um, L1, é responsável por manter a rede segura e descentralizada.

Assim, as funções de escalabilidade, como transações rápidas e baratas, foram direcionadas para camadas adjacentes acima da L1, acima da blockchain do Bitcoin, visto que tentar ter todas as funcionalidades na blockchain tem demonstrado acabar totalmente com a segurança e descentralização da rede.

Foi a partir disso que surgiram as redes de segunda camada, como a Liquid e a Lightning Network, e os protocolos sidechains. Essas redes são construídas paralelamente ao Bitcoin e oferecem soluções financeiras para os usuários. Assim, a camada um mantém sua função primordial, enquanto as camadas dois focam em inovação, redução de custos e velocidade.

É como se, para usar essas redes paralelas, a rede do Bitcoin (on-chain) servisse de base para aproveitarmos diversos mecanismos financeiros com Bitcoin sem comprometer a segurança e a descentralização da rede principal.

Resumindo, a L1 do Bitcoin possui algumas limitações de escalabilidade; portanto, seria muito pesado e caro construir diversas soluções dentro dela. Elas provavelmente nem seriam escaláveis. Por isso surgiram as redes de segunda camada, com soluções importantes, que utilizam a blockchain do Bitcoin como ‘base’ sem comprometer a segurança da rede principal.

O que é a Liquid Network?

A Liquid Network é uma sidechain do Bitcoin, uma rede paralela que permite transações mais rápidas e confidenciais, além da emissão de novos ativos digitais, utilizando o Bitcoin como base. Foi desenvolvida pela empresa Blockstream e utiliza os recursos da Elements.

A Elements, por sua vez, é uma blockchain de código aberto compatível com sidechains. Ela oferece uma gama de recursos desenvolvidos pela comunidade, incluindo a realização de transações confidenciais e a possibilidade de emitir novos ativos.

Além disso, é importante destacar que a Liquid é formada por uma federação, que inclui diversos membros, como exchanges, carteiras e empresas que prestam serviços relacionados ao Bitcoin.

Para os usuários, a Liquid oferece a possibilidade de transferência de Bitcoins entre a rede on-chain do Bitcoin e a própria Liquid, através de uma conexão bidirecional. Neste caso, os bitcoins usados na Liquid são chamados de L-BTC e possuem paridade de 1:1 com o BTC, mantendo uma quantidade equivalente.

Assim, essa equivalência entre L-BTC e BTC é comprovada pelos membros da Liquid, denominados funcionários, que são as pessoas responsáveis por operar o hardware especializado para confirmar transações e proteger os fundos de bitcoin da rede.

O que é a Liquid Federation?

A Liquid Federation é um grupo de organizações, incluindo exchanges, empresas, carteiras, mesas de negociação e desenvolvedores, que desempenham tarefas essenciais para o protocolo da Liquid Network.

Portanto, existem diversos membros que fazem parte da rede Liquid e que estão espalhados geograficamente e geopoliticamente pelo mundo todo.

Os membros federados são responsáveis pela governança da rede. No entanto, os usuários podem verificar tudo o que acontece na rede ao executar um nó Liquid.

A estrutura dessa federação consiste em três partes:

  • Funcionários: que executam o hardware especializado para verificar transações e proteger os fundos de bitcoin da rede.
  • Membros: além de transferirem fundos da Liquid para a rede Bitcoin, eles também votam em eleições do conselho e em novas atualizações.
  • Nós completos: garantem que os funcionários atuem de maneira adequada e verificam as transações da rede Bitcoin para a rede Liquid.

Além disso, de seus aproximadamente 60 membros, 15 atuam como funcionários, responsáveis por:

  1. Confirmar novos blocos
  2. e proteger e gerenciar os fundos de Bitcoin mantidos na carteira multi-assinaturas da rede.

A governança é mantida por três conselhos, responsáveis pela adesão, supervisão e tecnologia. Assim, cada conselho é composto por cinco membros da federação, escolhidos anualmente por votação.

Esse sistema de governança é como a rede funciona internamente. Entretanto, qualquer pessoa ao redor do mundo pode usar a Liquid por meio de suas aplicações e adquirir L-BTC para transações dentro da Liquid.

Como a Liquid funciona?

A Liquid Network funciona como uma sidechain que permite aos usuários transferir BTC para e de volta à mainchain do Bitcoin, por meio de uma ligação bidirecional com paridade de 1:1.

Como vimos anteriormente, na Liquid, é emitido o Liquid Bitcoin (L-BTC), uma versão “embrulhada” do BTC.

Quais as principais funcionalidades da Liquid Network?

O objetivo da Liquid é atuar como um sistema financeiro global, descentralizado e apoiado no Bitcoin. Sendo assim, essa rede oferece diversas funcionalidades, tais como:

  • Liquidações finais rápidas: o Bitcoin movido para a Liquid (Bitcoin líquido, ou seja, “L-BTC”) pode alcançar liquidação final em dois minutos.
  • Transações confidenciais: os valores e os tipos de ativos transacionados permanecem ocultos por padrão na Liquid, assegurando a proteção dos dados financeiros dos usuários.
  • Tokenização: novos tokens podem ser emitidos na Liquid para representar moedas fiduciárias, títulos ou outros ativos digitais.
  • Interoperabilidade: a integração com a Liquid One oferece suporte para L-BTC e ativos emitidos. Todos os tokens seguem o mesmo padrão, permitindo que os usuários aproveitem recursos como atomic swaps e multisig, no estilo do Bitcoin.

Transferências entre L-BTC e BTC 

O processo de transferir Bitcoin para a Liquid (L-BTC), denominado peg-in, consiste basicamente em o usuário enviar Bitcoin para um endereço gerado por uma carteira ou aplicativo Liquid e, em seguida, criar uma transação de peg-in para reivindicar seu L-BTC na Liquid.

Uma transação de peg-in requer 102 confirmações na rede Bitcoin. Isso é necessário para garantir a segurança de todos os participantes em caso de uma reorganização dos blocos.

Já para transferir L-BTC para Bitcoin, é necessário realizar uma operação de peg-out. Essas operações são realizadas em lotes, e cada rodada leva, pelo menos, 17 minutos para ser concluída.

Contudo, dependendo das condições da rede, esse tempo de confirmação pode variar entre 11 e 35 minutos.

O que é peg-in?

Basicamente, peg-in é o processo pelo qual os usuários transferem BTC para a blockchain da Liquid. Isso é feito enviando BTC para um endereço Bitcoin gerenciado pela Liquid Federation.

Em troca, a Federação envia uma quantidade equivalente de L-BTC ao usuário. Com L-BTC, o usuário pode interagir com a cadeia Liquid e seu ecossistema.

O que é peg-out?

Como já vimos, peg-out é o processo usado quando um usuário deseja converter seu L-BTC de volta em BTC na rede Bitcoin.

Assim, o usuário inicia esse processo enviando L-BTC para um endereço de queima, onde os fundos são permanentemente removidos da rede Liquid.

Após a confirmação dessa transação, a Liquid Federation libera uma quantidade equivalente de BTC na rede Bitcoin e a envia de volta ao usuário.

Como adquirir L-BTC?

É possível adquirir L-BTC por meio de algumas plataformas, seja trocando Bitcoin por L-BTC ou comprando L-BTC com moeda fiduciária.

Plataformas para trocar BTC por L-BTC:

Plataformas para comprar L-BTC:

O serviço brasileiro Stackfy, que funciona com um bot no Telegram, também integrou recentemente suporte à Liquid Network em sua aplicação.

Existem ainda outras plataformas onde você pode realizar empréstimos com Bitcoin em troca de L-BTC ou trocar satoshis pela Lightning Network com L-BTC.

Você pode conferir todas as possibilidades AQUI.

Como usar a Liquid Network?

Após adquirir seus primeiros L-BTC, você pode realizar operações na Liquid. Além disso, também é possível utilizar L-BTC em uma carteira Liquid com a mesma facilidade de uma carteira Bitcoin tradicional.

Uma dica é usar o Blockstream App, que é a evolução da antiga Green Wallet, ou uma Blockstream Jade, agora também na versão Jade Plus, todas desenvolvidas pela própria Blockstream. Nelas você cria uma conta tanto para Bitcoin quanto para L-BTC com a mesma facilidade, legal né?!

Além dessas duas, algumas outras carteiras suportam a Liquid Network, tais como:

Existem também outras aplicações na Liquid que permitem empréstimos, a criação de tokens, a comercialização de artes digitais, entre outros serviços.

Projetos que utilizam a Liquid Network

Atualmente, duas plataformas se destacam na Liquid Network para atividades de DeFi (Finanças Descentralizadas): Hodl Hodl e SideSwap.

Hodl Hodl

Hodl Hodl é um aplicativo de negociação peer-to-peer de Bitcoin que utiliza contratos inteligentes multisig (assinatura múltipla) em vez dos métodos tradicionais de custódia.

Pioneira na integração com a Liquid Network, a plataforma simplifica a conversão entre BTC e L-BTC. Além disso, seu serviço “Lend at Hodl Hodl” permite que os usuários emprestem L-BTC e Liquid USDT.

SideSwap

SideSwap é um aplicativo utilizado para envio, recebimento e troca de tokens da Liquid.

Esse aplicativo busca facilitar negociações peer-to-peer com atomic swaps, que asseguram o controle total dos usuários sobre seus ativos e minimizam riscos de contraparte.

Além disso, a carteira autogerida do SideSwap garante que os usuários detenham as chaves de seus ativos na Liquid, e o aplicativo também facilita a conversão entre BTC e L-BTC.

O hack da Liquid Network de setembro de 2026

Em 6 de setembro de 2026 a Liquid Network sofreu o pior tipo de ataque que uma rede baseada em Bitcoin pode enfrentar, a inflação da própria oferta. Um bug no software Elements, na validação das provas de intervalo das transações confidenciais, permitiu que um atacante criasse L-BTC sem lastro e resgatasse esse valor como Bitcoin de verdade. O ataque drenou cerca de 4.000 BTC, aproximadamente 95% das reservas que lastreavam o L-BTC, algo em torno de 320 milhões de dólares. Nada disso foi roubo de chaves nem falha na rede principal do Bitcoin, o problema morava em uma otimização de desempenho da sidechain, o que reforça uma lição antiga entre bitcoiners, quanto mais complexa é uma camada, maior é a sua superfície de ataque.

O que são transações confidenciais e por que elas precisam de provas

Um dos grandes atrativos da Liquid são as transações confidenciais, que escondem os valores movimentados para dar mais privacidade aos usuários. O detalhe é que, se ninguém enxerga os valores, os nós da rede precisam de outra forma de garantir que a transação é válida e não está imprimindo moeda. Para isso, cada transação confidencial carrega duas provas criptográficas, a prova de saldo e a prova de intervalo.

Prova de saldo e prova de intervalo

A prova de saldo, ou balance proof, garante que a soma dos valores que entram é igual à soma dos valores que saem, ou seja, que entraram x L-BTC e saíram x L-BTC. Só que isso sozinho não basta, e é aí que entra a prova de intervalo, ou range proof. Ela garante que cada valor escondido está dentro de uma faixa positiva, no mínimo 1 L-sat e no máximo 2^64 menos 1 L-sats, o que impede a criação de L-BTC negativo.

Por que isso é necessário? Como os valores estão escondidos, um valor negativo oculto poderia ser usado para equilibrar saídas positivas gigantes. Sem a prova de intervalo, alguém poderia montar uma transação que diz “coloquei 1 L-BTC na entrada e estou tirando duas saídas, uma de 4000 L-BTC e outra de -3999 L-BTC”. A prova de intervalo existe justamente para tornar esse tipo de mágica impossível, e guarde bem essa ideia porque ela é o estopim do que veio a seguir.

O cache que abriu a porta

Até aqui o sistema é sólido. O ponto fraco surgiu de uma decisão de desempenho, porque verificar uma prova de intervalo é caro em processamento. Para não refazer essa conta toda hora, os nós da Liquid guardam em memória o resultado de uma prova que já foi validada com sucesso. É um cache, uma forma de o nó lembrar “essa prova aqui eu já vi antes e estava tudo certo, pode seguir”. Para reconhecer a mesma prova mais tarde, o nó dá a ela um rótulo, chamado de chave de cache, e foi exatamente na forma como essa chave era construída que morava o bug.

A colisão de chave de cache que causou a inflação

A maneira como a chave de cache era calculada permitia que duas transações completamente diferentes gerassem a mesma chave. Em outras palavras, uma transação válida, de 1 L-BTC entrando e 1 L-BTC saindo, podia acabar com a mesma chave de cache de uma transação inválida, de 1 L-BTC entrando e 4000 L-BTC saindo. Esse tipo de coincidência forçada, em que dois dados diferentes produzem o mesmo identificador, é o que os desenvolvedores chamam de colisão, e foi ela que o atacante soube explorar.

O passo a passo do ataque

  1. O atacante enviou primeiro a transação válida, de 1 L-BTC para 1 L-BTC. Os nós validaram tudo corretamente, calcularam a chave de cache, que vamos apelidar de REKT, e guardaram esse resultado na memória.
  2. Em seguida, ele montou com cuidado uma segunda transação, dessa vez inválida, de 1 L-BTC para 4000 L-BTC, construída de propósito para gerar exatamente a mesma chave REKT.
  3. Ao receber a segunda transação, em vez de validar a prova de intervalo e perceber que ela imprimia moeda do nada, o nó encontrou a chave REKT no cache e concluiu “essa eu já vi, está tudo certo”. A verificação cara foi pulada e a transação inflacionária passou pelo consenso.
  4. Com os L-BTC criados do nada em mãos, o atacante usou o serviço de peg-out da SideSwap para resgatar o valor, o que fez a própria federação assinar a transferência de bitcoins verdadeiros para um endereço controlado por ele. Foi assim que quase 4.000 BTC saíram das reservas da rede.

A resposta da rede

A reação foi rápida. A Blockstream pausou imediatamente os nós da ponte da Liquid, o que travou a sidechain, e pediu que as exchanges suspendessem depósitos e saques de L-BTC. Vale registrar que os outros ativos emitidos na rede, como o USDT, não foram afetados, já que o bug atingia apenas o mecanismo de transações confidenciais. Com a rede pausada, o atacante ficou com os fundos, mas sem conseguir movimentar mais nada dentro da Liquid.

O hacker “white hat” e a devolução

O capítulo mais surreal veio depois. O atacante se identificou como white hat, um hacker do bem, e começou a conversar publicamente com a Blockstream, trocando mensagens gravadas na própria blockchain do Bitcoin via OP_RETURN e por textos assinados em PGP. Ele ofereceu devolver a maior parte dos fundos, mas com uma condição, o bug precisava ser corrigido e todos os nós da rede precisavam receber o patch antes. Curiosamente, um commit de correção já existia no código, só não tinha sido colocado em produção. A Blockstream respondeu com um seco “Yes, thank you” e, segundo alguns relatos, informou que os nós de ponte já estavam atualizados.

No desfecho, o hacker devolveu cerca de 3.400 BTC para a federação Liquid e ficou com aproximadamente 600 BTC, algo em torno de 15% do total, provavelmente a título de recompensa autoconcedida. Foi um final relativamente feliz para os padrões de um ataque desse tamanho, mas que só foi possível pela boa vontade de quem explorou a falha, e boa vontade não é uma propriedade de segurança em que se deva confiar.

A recuperação da rede

Em 9 de setembro de 2026 a Liquid publicou o plano de recuperação e lançou uma correção de emergência, o Elements v23.3.4. Essa versão ataca exatamente a raiz do problema, endurecendo a forma como as chaves de cache das provas de intervalo são construídas, que foi a brecha explorada no ataque. Os nós funcionários da federação começaram a ser atualizados de imediato, e a recomendação é que todos os operadores de nós da Liquid façam o mesmo. Antes de ir para produção, o release passou por várias rodadas de revisão interna e externa, incluindo os times do Bitcoin Red Team e da Alpen Labs, entre outros.

O plano de retomada foi dividido em três etapas, ainda sujeitas a ajuste conforme os testes avançam. Primeiro, a rede volta a produzir blocos com as operações de peg ainda suspensas. Depois, as transações verificadas como válidas são reprocessadas. Por fim, as operações de peg só voltam quando o estado da rede estiver totalmente restaurado, incluindo a devolução dos fundos. A Blockstream informou que estava testando as duas primeiras etapas em paralelo e que nenhuma delas avançaria antes de ser considerada segura.

A federação também fez um alerta importante sobre golpes. Surgiram sites falsos de atualização tentando se aproveitar da confusão, então a orientação é confiar apenas nos canais oficiais da Liquid Network e da Blockstream, e jamais enviar fundos ou revelar chaves privadas e seeds em resposta a mensagens não solicitadas.

O que esse ataque significa

A primeira coisa importante é que a camada base do Bitcoin não foi tocada, o limite de 21 milhões continua intacto e nenhuma regra de consenso do Bitcoin foi violada. Quem inflacionou foi o L-BTC dentro da sidechain, e o BTC sacado saiu das reservas administradas pela federação, não de um furo na rede principal. Isso deixa claro na prática algo que os maximalistas repetem faz tempo, L-BTC nunca foi Bitcoin de verdade, é um IOU lastreado por um grupo de empresas.

A segunda lição é sobre complexidade. As transações confidenciais entregam privacidade, mas cobram o preço de um código muito mais elaborado, e é dentro dessa elaboração que bugs sutis como uma colisão de chave de cache conseguem se esconder por anos. Foi o mesmo tipo de raciocínio que apareceu no hack da Coldcard de 2026, mais um lembrete de que cada recurso extra amplia a superfície de ataque e de que a máxima do “não confie, verifique” nunca sai de moda.

Por fim, o episódio expõe os dois lados da federação. Ela é criticada por centralizar a governança da rede, e essa crítica é justa, tanto que foi a própria federação que assinou a transferência dos bitcoins para o atacante. Ao mesmo tempo, foi essa mesma estrutura centralizada que permitiu pausar a rede em minutos e coordenar uma resposta, algo que uma rede realmente descentralizada não conseguiria fazer sem uma bifurcação traumática. A conta a se fazer é simples, quem abre mão de descentralização em troca de recursos precisa confiar em quem opera a ponte, e confiança é exatamente aquilo que o Bitcoin foi criado para eliminar.

O que fazer se você usa a Liquid

  • Acompanhe os canais oficiais da Blockstream e da federação Liquid para saber quando a rede voltar a operar e o status do peg.
  • Enquanto a rede estiver pausada, não conte com movimentações de L-BTC, e evite mover grandes quantias assim que ela voltar, até o patch estar em todos os nós.
  • Lembre que soberania de verdade está na camada base, em autocustódia. Se você busca segurança máxima, mantenha seus sats on-chain, sob suas chaves.
  • Sempre que possível, rode seu próprio nó e verifique você mesmo, em vez de confiar cegamente em terceiros.

Vantagens da Liquid Network

Como vimos ao longo deste artigo, a Liquid possui uma série de recursos que permitem aos usuários utilizar mecanismos financeiros de forma descentralizada, tendo o Bitcoin como rede base e de liquidação final.

Portanto, a grande vantagem da Liquid Network é sua proposta como um sistema financeiro global. Isso permite que não precisemos mais utilizar o sistema financeiro tradicional, dispondo agora de uma rede baseada no Bitcoin que atende às necessidades de diversos usuários.

Além disso, novos tokens podem ser criados na Liquid, aproveitando a segurança e privacidade já conhecidas da rede Bitcoin. Todas as transações possuem uma camada de segurança, onde quem está de fora não precisa necessariamente saber qual foi o tipo de ativo que você transacionou na Liquid Network. 

A Liquid Network vem sendo utilizada com maior frequência para fazer swaps de L2 para L2 em períodos de taxas altas na rede Bitcoin Principal.

Desvantagens da Liquid Network

Um ponto da Liquid frequentemente criticado é o controle da rede por uma federação, indicando um foco de centralização.

Entretanto, apesar das críticas, os defensores da rede argumentam que é preferível usar a Liquid Network, um protocolo transparente em seu funcionamento e que se apoia na descentralização do Bitcoin, do que recorrer a criptomoedas com pré-mineração, vendas privadas para insiders e vulnerabilidades ocultas, típicas de esquemas de afinidade.

Assim, a criação de security tokens em uma blockchain que não finge ser descentralizada e que pode se conectar ao mundo fiat, apoiada no BTC, é vista como uma opção mais confiável.

Porém, há quem concorde e quem discorde dessa visão…

O foco da Liquid na emissão de ativos e tokens não agrada a muitos bitcoiners, parecendo uma tentativa de replicar o modelo ERC-20 do Ethereum.

Assim, talvez pela centralização na federação e o direcionamento para tokens, a Liquid Network ainda não teve uma adoção significativa pelos bitcoiners, ao contrário do que ocorreu com a Lightning Network.

O ataque de setembro de 2026 deu munição concreta a essas críticas. Ele mostrou que a complexidade das transações confidenciais pode esconder bugs graves e que, no fim das contas, a segurança dos seus L-BTC depende da federação que opera a rede.

Perguntas Frequentes sobre a rede Liquid

A Liquid Network foi hackeada?

Sim. Em 6 de setembro de 2026 a Liquid Network sofreu um ataque de inflação que drenou cerca de 4.000 BTC, aproximadamente 95% das reservas que lastreavam o L-BTC, algo em torno de 320 milhões de dólares. Um bug no software Elements, na validação das provas de intervalo das transações confidenciais, permitiu criar L-BTC sem lastro e resgatá-lo como Bitcoin via peg-out. A rede foi pausada, e mais tarde o atacante, que se dizia white hat, devolveu cerca de 3.400 BTC e ficou com cerca de 600.

O hack da Liquid afetou o Bitcoin?

Não. O limite de 21 milhões e as regras de consenso do Bitcoin permaneceram intactos. Quem foi inflacionado foi o L-BTC dentro da Liquid, e o BTC sacado veio das reservas administradas pela federação. O episódio reforça que L-BTC é um ativo lastreado por terceiros e não Bitcoin na rede principal.

O que é uma prova de intervalo (range proof)?

É uma prova criptográfica que garante que o valor escondido de uma transação confidencial está dentro de uma faixa positiva, sem revelar qual é o valor. Ela impede a criação de valores negativos que poderiam ser usados para equilibrar saídas gigantes e imprimir moeda. Foi justamente uma falha no cache dessas provas que abriu a porta para o ataque.

L-BTC é a mesma coisa que Bitcoin?

Não. O L-BTC é uma versão do Bitcoin dentro da sidechain Liquid, com paridade de 1 para 1, mas custodiada por uma federação de empresas. Ele é útil para transações rápidas e confidenciais, porém a sua segurança depende de quem opera a ponte. Bitcoin de verdade, com soberania total, é o que você mantém on-chain em autocustódia.

A Liquid Network é segura depois do hack?

A Liquid segue funcionando, mas o episódio de setembro de 2026 mostrou que a rede tem uma superfície de ataque real por causa da sua complexidade. A federação reagiu rápido, pausou a rede, recuperou a maior parte dos fundos com a ajuda de um atacante white hat e, em 9 de setembro, publicou uma correção de emergência, o Elements v23.3.4, que fecha exatamente a brecha explorada.

A partir daí a rede entrou em um plano de recuperação em etapas, retomando a produção de blocos primeiro e deixando as operações de peg para o final, quando o estado da rede estiver totalmente restaurado e os fundos devolvidos. Ainda assim, o recado de fundo continua valendo.

A Liquid é uma rede de segunda camada útil para casos específicos, mas L-BTC não é a mesma coisa que ter o seu Bitcoin em autocustódia na rede principal. Para guardar valor no longo prazo, o mais seguro continua sendo manter o seu Bitcoin em uma cold wallet, com você no controle das chaves.

Conclusão

Diante de tudo que apresentamos, percebemos que o Bitcoin transcende a ideia de ser apenas uma “moedinha digital da internet”, ele veio para ser muito mais do que isso.

Hoje, diversos protocolos estão sendo construídos sobre o Bitcoin para permitir que usuários ao redor do mundo, com necessidades completamente diferentes, possam desfrutar de toda a segurança e privacidade que o Bitcoin oferece, sem se limitar ao uso exclusivo da moeda para transações.

Isso coloca não apenas o Bitcoin (a moeda), mas também o Bitcoin (a rede) como o futuro do sistema financeiro.

Além disso, atualmente, diversos investidores tradicionais podem se expor ao ativo por meio dos ETF de bitcoin.

No entanto, no futuro, podemos ver esses mesmos mecanismos financeiros sendo emitidos na Liquid Network, por exemplo.

Esperamos que esse artigo tenha te ajudado a entender melhor sobre a Liquid Network.

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Escrito por
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Carol Souza

Uma das principais educadoras de Bitcoin no Brasil e fundadora da Area Bitcoin, uma das maiores escolas de Bitcoin do mundo. Ela já participou de seminários para desenvolvedores de Bitcoin e Lightning da Chaincode (NY) e é palestrante recorrente em conferências sobre Bitcoin ao redor do mundo, bem como Adopting Bitcoin, Satsconf, Bitcoin Atlantis, Surfin Bitcoin e mais.

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